Cruzes Canhoto!
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9/21/2003

CRISTIANISMO E COMUNISMO - O nosso leitor Paulo Almeida teve a suprema gentileza de transcrever e enviar o excerto da Montanha Mágica onde se discute comunismo e cristianismo. Mil obrigados: "-Já sei o que o senhor pensa do Estado nacional. «Acima de tudo o amor à Pátria e o infinito desejo de glória!» A frase é de Virgílio. O senhor corrige-o com o acréscimo de um pouco de individualismo liberal, e surge a Democracia. Mas isso não modifica em princípio as suas relações com o Estado. O senhor não parece chocar-se com a circunstância de que a alma do Estado é o dinheiro. Ou tenciona, acaso, desmenti-la? A Antiguidade era capitalista, devido ao seu culto do Estado. A Idade Média cristã percebeu com toda a clareza o capitalismo imanente do Estado secular. «O dinheiro será o imperador», é uma profecia do século XI. O senhor nega que ela já se cumpriu integralmente e que a vida se tornou, em si mesma, demoníaca? -Meu amigo! O senhor continua a ter a palavra. Estou impaciente por saber quem é o Grande Desconhecido, que trará consigo o Terror. -Curiosidade muito ousada na boca do representante de uma classe social que é o suporte de uma liberdade que arruinou o Mundo! A rigor posso dispensar as suas réplicas, porque não ignoro a ideologia política da burguesia. O vosso objectivo é o império democrático, a apoteose com que o princípio do Estado nacional se eleva a si próprio a Estado Universal. O imperador desse império? Conhecemo-lo. A vossa utopia é horrorosa, e todavia neste ponto voltamos, de certo modo, a estar de acordo. Pois a sua república universal capitalista tem qualquer coisa de transcendente em relação ao Estado secular, e acreditamos ambos em que à perfeição da fase primitiva da Humanidade, corresponde uma fase final perfeita, situada à distância no horizonte. Desde os dias de Gregório Magno, fundador da Cidade de Deus, a Igreja considerou-se incumbida de conduzir os homens sob o governo de Deus. O Papa não pretende a soberania para si próprio; a sua ditadura como delegado de Deus era um meio e um caminho para alcançar a Salvação, uma forma de transição do Estado pagão para o reino celeste. O senhor falou, diante destes seus discípulos, dos actos sanguinários da Igreja, e da sua intolerância implacável, e mostrou-se sumamente tolo ao fazê-lo. Pois o zelo religioso naturalmente não pode ser pacifista, e o próprio Gregório disse: «Maldito seja o homem que impede a sua espada de derramar sangue!» Já sabemos que o poder é mau. Mas o dualismo do bem e do mal, do aquém e do além, do espírito e do poder, deve ser - para que chegue o reino - passageiramente substituído por um princípio que reúna o ascetismo e o domínio. É a isso que chamo a necessidade do Terror. -Mas quem? Quem será, então?... -O senhor ainda pergunta? Será que à sua mentalidade manchesteriana escapou a existência de uma doutrina da Sociedade que representa a vitória do homem sobre o economicismo, e cujos princípios e objectivos coincidem inteiramente com os do Estado cristão de Deus? Os Padres da Igreja qualificavam o «meu» e o «teu» de palavras funestas e chamavam à propriedade privada usurpação e roubo. Condenavam a posse de bens porque a terra, segundo o direito natural e divino, era comum a todos os homens, produzindo os seus frutos para uso geral de todos. Ensinavam que somente a cobiça, consequência do pecado original, defendia os direitos de posse e criara a propriedade privada. Eram bastante humanos, bastante hostis ao comércio para considerar a actividade económica em geral como um perigo para a salvação da alma, isto é, para a Humanidade. Odiaram o dinheiro e os negócios, e a riqueza capitalista era para eles o combustível das chamas do inferno. A lei económica fundamental, a saber, que o preço resulta da relação entre a oferta e a procura, foi desprezada de todo o coração por eles, que reprovavam o aproveitamento de circunstâncias favoráveis como exploração cínica da miséria do próximo. Existia, contudo, aos seus olhos, uma exploração mais criminosa ainda: a do tempo, a monstruosidade de se fazer pagar um prémio pelo simples transcurso do tempo, esse prémio que são os juros, e de se abusar dessa forma, para vantagem de uns e prejuízo de outros, de uma instituição divina e geral, o tempo. -_Benissimo!_- exclamou Hans Castorp, deixando-se levar pelo seu entusiasmo a empregar a fórmula de aprovação do Sr. Settembrini.- O tempo... Uma instituição divina e geral... Isto é sumamente importante! -De facto - prosseguia Naphta - Esses espíritos realmente humanos julgavam abominável a ideia de um aumento automático do dinheiro. Incluíam no conceito da usura qualquer especulação ou anatocismo e declaravam que todos os ricos ou eram ladrões ou herdeiros de ladrões. Iam ainda mais longe. Partilhavam a opinião de São Tomás de Aquino, segundo a qual o comércio em si, o mero negócio comercial, a compra e venda no intuito de obter um lucro, sem transformação nem melhoramento da mercadoria, representava uma profissão ignominiosa. Não eram propensos a apreciar muito o próprio trabalho, pois ele é apenas um assunto ético e não religioso, e realiza-se a serviço da Vida e não de Deus. E desde que não se tratava de outra coisa senão da vida e da economia, exigiam que uma actividade produtiva formasse a condição de toda a vantagem económica e a medida da respeitabilidade. Honrosos pareciam-lhes o agricultor e o artífice, mas não o mercador, nem o industrial. Queriam que a produção se acomodasse às necessidades e abominavam a produção em massa. Bem, depois de séculos de soterramento ressurgem todos esses princípios no movimento moderno do comunismo. A semelhança é completa, até no significado da reivindicação da soberania, que o trabalho internacional formula contra a camada internacional de comerciantes e especuladores; o proletariado do mundo, hoje em dia opõe a Humanidade e os critérios da Cidade de Deus à depravação burguesa-capitalista. A ditadura do proletariado, essa exigência de salvação política e económica dos nossos tempos, não tem o sentido de um domínio pelo domínio e por toda a eternidade, mas sim de uma abrogação temporária do conflito entre o Espírito e o Poder sob o signo da Cruz, o sentido de se triunfar sobre o mundo dominando-o, o sentido da transição e da transcendência, o sentido do Reino. O proletariado retomou a obra de Gregório; sente arder no seu íntimo o zelo piedoso do grande papa, e como ele tão-pouco poderá impedir as suas mãos do derramamento de sangue. O dever é instituir o terror para a salvação do Mundo e para conseguir o que foi o objectivo do Salvador: a vida em Deus, sem Estado nem classe." Thomas Mann, Montanha Mágica

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