Cruzes Canhoto!
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9/24/2003

E O MISTER SANTO DO ANO É... - Há anos vivi durante uns meses em Inglaterra. Não vou aborrecê-los com tiradas cansativas contra a comida inglesa, contra o clima inglês ou contra os padeiros ingleses que pegam à mão no produto que vendem. Vou falar do telefone que tinha. Este telefone vinha acompanhado de uma brochura/manual de instruções/contratos de serviços, que tinha na capa interior uma nota legal mais ou menos assim: A Phoneline não se responsabiliza por eventuais falhas de serviço causadas por intervenção de pessoal não autorizado, incêndios, tempestades, terramotos, tufões, dilúvios, inundações, sabotagens, guerras, atentados terroristas, motins, golpes de estados e intervenções divinas. As duas últimas condições deixaram-me perplexo. A primeira porque a Inglaterra não tem golpes de estado há séculos, a segunda... bem, como é que se prova que uma linha telefónica deixou de funcionar devido a intervenção divina? Suponhamos que esta cláusula não existia e alguém processava a companhia por a linha ter deixado de funcionar devido ?a intervenção divina?. Como é que se provava tal alegação? Caso os engenheiros não encontrem motivo aparente? E nesse caso como se prova que não foi incompetência da companhia e sim intervenção divina. E já agora, intervenção divina de quem? Bem, não consegui arranjar melhor argumento para defender tal tese senão: "Foi intervenção divina que fez a linha telefónica falhar, porque é isso que eu acredito!" Vou, é óbvio, voltar à questão dos Evangelhos e de S. Paulo, que levantou algum celeuma no Voz do Deserto, no Avatares de Desejo, no Paletós e no Opinion Desmaker. Vou tentar responder-lhes, começando pelo mais fácil. O Paletós diz que não percebo "pevide" do que estou a dizer. Eu por acaso até acho que percebo ?pevide? da história dos primeiros cristãos. "Melancia", provavelmente não percebo, é certo. E de teologia percebo, no máximo, meio pevide. Parece-me, contudo, é que como o Smoking não me conhece de lado nenhum, se deixou cair na tentação do esterótipo ?comuna que nunca abriu a Bíblia?. Três avé-marias e quatro pais-nossos como castigo.
O Opiniondesmaker chama-me "enfardadeira automática" e diz que tenho um ateísmo ?mecanicista, previsível, redutor?. Eu por acaso gostei da "enfardadeira automática" e até a anotei no meu livrinho de insultos imaginativos. Quanto aos outros adjectivos, concordo com o ?mecanicista?, não com o resto. "Mecanicista, previsível, redutora" seria certamente a posição da Telefónica se aparecesse alguém a reclamar que a sua linha deixara de funcionar devido a "intervenção divina". Mas que outra coisa poderia a empresa fazer? Aceitar e benzer-se? Ou pelo contrário deveria aceitar que o indivíduo acreditava realmente no que dizia, mas enviar os seus engenheiros para tentar identificar uma causa mais mundana?
Quando a espinhosa questão da política/religião me foi colocada, eu sabia que tinha pela frente um pântano. Mas eu gosto de pântanos. Acho que têm uma vida natural riquíssima e que valem a pena se uma pessoa se precaver contra afogamentos e cobras. Por isso avancei. Mas para isso tinha de discutir a posição da Igreja e tinha de legitimar as minhas ideias ou do ponto de vista teológico ou histórico. Andar à cata de passagens bíblicas que mostrassem que o cristianismo é intrinsecamente conservador era uma bocarra demasiado grande para o meu pevidezinho teológico e coisa em que não acredito particularmente. Restava-me a parte histórica, para a qual estou mais documentado e seguro. Não sou proselitista e não tenho interesse em tentar converter ninguém. Primeiro, porque as crenças privadas não me incomodam; Segundo porque sei que para quem tem fé, Deus não é uma abstracção, mas uma verdadeira presença física, se bem que incorpórea; Terceiro porque só é convertido a quem isso está predisposto. Mas isso não me impede de dar a minha opinião ou contestar aquilo de que discordo, que é o que fiz e faço, se bem que num tom algo provocatório que costumo assumir. O Bruno e o Tiago duvidam do que disse sobre o Novo Testamento e sobre Paulo. O Bruno julga que tentei negar todo o fundamento do cristianismo ao explicar o processo de formação da igreja. De maneira nenhuma! Tentei explicar porque é que desde o início venceu a forma mais institucional do cristianismo. Isto não é, julgo, negar o cristianismo nos seus princípios fundamentais, somente reflectir sobre as formas de que se revestiu. Isto explicado, vou de ora em diante fundamentar a minha posição sobre os Evangelhos, sobre Paulo e sobre Ireneu. Evangelhos Tentemos contextualizar-nos. Os evangelhos mais antigos crê-se terem sido escritos nas décadas 60-70 d.C.. Mas a versão canónica da Bíblia foi apenas oficialmente ratificada em 382 d.C. no concílio de Roma. Ou seja, trezentos anos para a Igreja assumir a importância do que se viria a tornar o fundamento principal do Cristianismo. Porquê tanto tempo? A resposta está na pouca importância que se lhes atribuía. Pápias (60-130 d.C.), bispo de Hierápolis, chegou a observar: Não hesitarei em expor perante vós, juntamente com a minha própria interpretação, tudo o que aprendi cuidadosamente com os anciãos e de que tão bem me lembro... Parece-me que posso aproveitar mais com uma voz sonora do que com os livros.
Esta atitude tinha uma explicação simples. O conceito de escrever e venerar as histórias e princípios religiosos não era considerado fundamental, pois as religiões eram quase sempre locais e específicas. Cada cidade pagã venerava o seu deus a que atribuía vários qualidades único. O rito era supervisionado por um sacerdote, detentor dos conhecimentos orais que recebera do anterior sacerdote e que transmitiria ao sacerdote seguinte ("da boca de um druida para o ouvido de outro druida", sentenciaria Panoramix). Não havia receio de deturpações pois as memórias eram altamente treinadas (lembrem-se que até há umas décadas os miúdos decoravam todos os dez cantos dos Lusíadas) e porque a criatividade mitológica era bem-vista, pois todos os novos feitos que fossem atribuídos aos deuses só poderiam ter sido inspirados por eles. Basta ver que as antigas epopeias começavam por evocações aos deuses pedindo-lhes inspiração. Ou que, na época, escrever histórias era quase sempre escrever histórias de deuses. Pois a criação era um atributo divino que apenas os deuses podiam conceder. Esta atitude teve alguma influência na primitiva igreja. Veja-se por exemplo o caso de Orígenes, de quem voltarei a falar, que compilou uma lista de mais de uma centena de obras neotestamentárias e, mesmo reconhecendo algumas como pouco ortodoxas ou mesmo de origem dúbia, classificou-as a todas de "divinamente inspiradas". No entanto, ao contrário das religiões politeístas, o cristianismo só tinha um deus de que contar histórias, além de uma enorme dispersão dos fiéis por várias partes do Império. O controlo da homogeneidade doutrinal era complicado de manter e rapidamente se sentiu a necessidade de usar escritos, que eram enviados de umas comunidades para outras. Os evangelhos não eram literalmente escritos pelo seus autores. Escrever era um assunto sério, que era confiado a especialistas, escribas treinados. O procedimento era similar às cartas ditadas pelos patrões às secretárias. O autor do evangelho dizia ao escriba os episódios, frases, reminiscências, reflexões e noções que queria que estivessem presentes no texto. Em seguida o escriba retirava-se e a partir destas notas escrevia um evangelho completo. Este era então lido ao seu autor, que dava o seu aval.
Outra coisa que não nos podemos esquecer é que somos filhos da imprensa. Para nós, livros são objectos serializados de conteúdo imutável. Mas nos primeiros tempos pós-cristãos, não isso que acontecia. Os livros eram duplicados à mão e por isso sujeitos a erros, lapsos, resumos, actos falhados ou manipulações intencionais. Conscientes disso, os leitores da altura eram mais tolerantes para com diferenças de pormenor e mais desconfiados em relação à veracidade de qualquer texto. Entre a tradição e o texto, certamente a tradição lhes pareceria mais fiável. Muito provavelmente, um evangelho chegava a uma comunidade cristã remetido por outra comunidade. O bispo do lugar, certamente discípulo de um apóstolo ou discípulo de um discípulo de um apóstolo, lia o texto e se lhe parecesse correcto com o seu próprio entendimento do cristianismo mandava copiá-lo para ser lido ao domingo nos encontros da comunidade. No entanto, com a autoridade que lhe era conferida pelos seus mentores, certamente não se escusaria a mandar o copista "corrigir" certas passagens que lhe pareciam menos próprias ou adequadas ao ensinamentos que recebera ou à sua própria interpretação do cristianismo. Pápias não devia ser a excepção de considerar a tradição que recebera mais verídica que qualquer escrito que lhe aparecesse. Mesmo que a sua tradição fosse diferente da do bispo de outra comunidade. Por outro lado, ao receber um escrito dito "sagrado", a comunidade simplesmente não tinha forma de confirmar a autenticidade deste. Pode traçar-se aqui um paralelo com o spam mail. Recebemos dezenas de pedidos de auxílio, denúncias e casos "verdadeiros" no e-mail enviados por amigos nossos. Raramente temos capacidade de aferir por nós próprios quais são válidos e apenas os aceitamos por serem enviados por amigos, incapazes eles próprios de jurar ou comprovar o mail que receberam. Também as comunidades cristãs tinham capacidades muito limitadas para saber se a epístola ou evangelho que lhes caía nas mãos era autêntico ou uma falsificação. O resultado era a existência de mais de 50 evangelhos, dezenas de epístolas, e um punhado de Actos e Apocalipses nos primeiros séculos pós-cristãos. Não havendo 50 apóstolos para escrever tanto evangelho, a maioria eram diferentes versões dos mesmos evangelhos ou evangelhos escritos de raíz. A título de exemplo, uma carta de Clemente de Alexandria, cuja veracidade é polémica, refere a existência de um Evangelho Secreto de S. Marcos, que seria uma versão "completada" do Evangelho canónico, ou este seria uma versão "truncada" do original. Clemente afirma que este Evangelho Secreto teria sido roubado por um "herético" chamado Carpócrates que o teria deturpado para legitimar as suas ideias do cristianismo. Acho que podemos supor que Carpócrates acusaria o "herético" Clemente da mesmíssima coisa, o que nos dá uma ideia da "guerra de evangelhos genuínos" que então decorreria. Mas note-se que na carta são referidas duas passagens, uma das quais é moderamente chocante, a outra resolve às mil maravilhas uma lacuna do Evangelho de S. Marcos canónico. Por último retomo Orígenes. Orígenes foi um cristão do séc. III de tal modo devoto que cortou os seus próprios tintins para melhor servir a Cristo (felizmente que a Igreja não achou o procedimento exemplar ou os meus interlocutores arriscavam-se a ter vozes muito fininhas). Como mencionei, Orígenes foi um leitor compulsivo de todos os escritos sagrados ou pseudo-sagrados ao ponto de se dizer que os sabia de cor e salteado. Mais importante, desenvolveu uma teoria que sustinha que os textos podiam ser lidos em vários níveis: o literal ("superficial e mecanicista", diria o desmaker), o moral e o espiritual. Esta teoria permitia que pudesse haver várias versões diferentes das mesmas histórias de Cristo, que podiam ser interpretadas da mesma forma moral e espiritualmente, mesmo que à superfície fossem diferentes. O que isto implica é que os primeiros cristão teriam uma grande tolerância para com inconsistências, disparidades e contradições entre os vários evangelhos e não sentiriam a necessidade que eles fossem rigorosamente iguais, como supõem o Bruno e o Tiago. Grave, grave, é que algum deles contivesse passagens que contradissessem claramente a variedade cristã que o leitor professava. Paulo e as heresias. O Voz do Deserto tem razão quando fala da predominância das heresias. Na realidade, o cristianismo é mais marcado pelas derivações que pelas continuações. Nos textos mais antigos do Novo Testamento (as epístolas de Paulo) já é notória a divergência entre judeus cristãos e gentios cristãos, na viragem para o séc. II d.C. há conhecimento de pelo menos 10 variantes gnósticas do cristianismo, em 390 d.C. Filástrio catalogou 156 grupos "heréticos" cristãos e hoje calcula-se que existam mais de 34 000 denominações cristãs. Não vou discutir se todas têm razão, umas são mais certas que outras, se só algumas, se uma apenas, o que deverá acontecer às outras, etc...., porque, com toda a franqueza, não tenho ideia nenhuma sobre o assunto. Em discussão está se a Bíblia é fruto de uma dessas variantes: o cristianismo paulista. Paulo, sabemos pela Bíblia, era um judeu rabino, isto é, pertencente à elite judaica. Como tal, tinha estatuto de cidadão romano pelo que mais tarde, segundo a tradição, terá tido direito a ser decapitado em Roma. Os apóstolos propriamente ditos seriam pescadores, artesãos e outros elementos humildes do povo (apenas Mateus era cobrador de impostos). Como tal, tiveram direito às execuções reservadas para os não-cidadãos (crucificados, assados vivos, atirados às feras e outros meios alegres e divertidos). Os Actos dos Apóstolos dizem-nos várias coisas importantes. Primeiro, que o cristianismo inicial era entendido como assunto só para judeus. Isto é, não poderia ser cristão quem não fosse judeu. É na conversão de Paulo que é pela primeira vez nos é dito explicitamente que ele seria o ?apóstolo dos gentios?. É também Paulo que cunha o termo ?cristãos? em Antioquia (Actos, 11:26) e que, com Barnabé (outro), se dedica pela primeira vez à conversão em massa de gentios e ainda entra em disputa com os restantes apóstolos sobre a questão da conversão destes (Actos 15). Paulo defendia que os gentios não necessitavam de ser circuncidados ou obedecer à lei de Moisés para serem considerados cristãos. Recapitulando, Paulo tinha um estatuto social superior aos dos apóstolos e terá inclusivamente perseguido seguidores de Cristo, pelo que é de imaginar que estes não o acolhessem efusivamente (há inclusive indícios de tentativas de assassínio). No entanto, não só cunhou o termo ?cristãos?, como agiu para separar efectivamente os princípios cristãos dos princípios judeus e as suas suas epístolas, os mais antigos escritos neotestamentários, são os primeiros que mais se aproximam de uma teologia coerente, em que se defende a Igreja como Corpo de Cristo. Basicamente, se queremos um culpado para a criação do Cristianismo, Paulo é o nosso homem. Uma palavra sobre os Apóstolos. Tão maltratados que são nos Evangelhos! Neles vemos os apóstolos a não perceber Jesus, a fazer o contrário do que ele quer, a fazê-lo irritar-se, a desertar quando ele precisa, a roncar quando lhes diz para vigiarem no Jardim das Oliveiras, a negar que o conhecessem... Piores discípulos alguém não podia arranjar. Mas nos Actos são já nobres, convictos, virtuosos, ponderados e nunca hesitam na missão que lhes foi confiada. Porquê tal disparidade? Foram mudados pela ressurreição e pelo Espírito Santo? Voltemos atrás: Pedro, Tiago e os outros abandonam profissões, famílias, amigos para seguirem Jesus. Alguns seriam zelotas, isto é gente que luta com armas contra a ocupação romana (hoje seriam chamados terroristas) que devem ter vislumbrado em Jesus um grande líder militar - há pelo menos a nota que alguém teria atacado um soldado romano à espadeirada no Jardim das Oliveiras. Mas e os outros? Ninguém abandona o seu lar e os seus de ânimo leve para seguir um desconhecido. Muito menos na altura, em que perder o homem da casa implicava perder o ganha-pão. Sendo humildes as famílias dos apóstolos, imagina-se o que seria a sua deserção ? fome, miséria, mendicidade. Alguém deixaria assim a família se não acreditasse profundamente em quem seguia? E esse alguém comportar-se-ia da maneira como é descrito nos Evangelhos. Ou será que estaremos perante um desacreditar intencional dos Apóstolos, em favor de alguém que veio depois, alguém de que dois terços dos Actos dos Apóstolos se ocupam. Paulo, justamente. "Feio e fanático"? Onesíforo, nos Actos de Paulo e Tecla, descreve Paulo como sendo ?bastante pequeno de tamanho, careca, com pernas tortas, sobrancelhas unidas e um grande nariz vermelho partido?. Humm, gostos não se discutem, mas duvido que o nosso Paulo ganhasse algum concurso de Mister Universo. O mesmo Onesíforo acrescenta que o rosto de Paulo parecia alternadamente o rosto de um Anjo e o rosto de um homem. Exageros à parte, é muito possível que Paulo tivesse aquela expressão que é designada por "fé profunda" por quem a partilha e por "fanatismo" por quem não a tem. Ireneu e o cânone Com mais de 50 Evangelhos e baldadas de outros textos sagrados à solta, começou a sentir-se a necessidade de fazer uma selecção. Entre todos estes textos, havia alguns que legitimavam uma posição, outros outra posição, outros ainda que eram uma espécie de produção hollywoodesca da vida de Jesus, cheia de milagres assombrosos e histórias copiadas verbatim dos mitos gregos. A estes últimos ninguém dava grande crédito, o problema eram os outros. O primeiro a tentar definir um cânone foi Marcião. Através de um método definido por si próprio, Marcião decidiu que os únicos textos verdadeiros eram 7 epístolas de Paulo, partes do Evangelho de S. Lucas e partes dos Actos dos Apóstolos. Depois interpretou estes textos à luz do Gnosticismo e foi prontamente expulso da Igreja. Contra ele, especificamente, e contra o gnosticismo em geral, Ireneu escreveu a sua obra Contra as Heresias. Como Gnosticismo entenda-se um conjunto bastante de díspar de crenças e práticas, tão diferentes entre si como as várias igrejas commumente chamadas de ?protestantes?. O que sabemos dos gnósticos são as suas ideias, que Ireneu tenta refutar na dita obra e os Evangelhos gnósticos recentemente descobertos (e bastante diferentes entre si). Na obra, Ireneu critica violentamente as posições gnósticas, defende todas as posições que mais tarde seriam inscritas no credo da igreja, defende o Evangelho de João e afirma que só a Igreja pode interpretar as escrituras. Defende também que os Evangelhos têm de ser quatro porque: Pois se há quatro cantos do mundo, quatro ventos e a Igreja está espalhada por todo o mundo, e o pilar e sustento da Igreja são os Evangelhos e o Espírito da vida, é justo que esta tenha quatro pilares... Sendo esses Evangelhos Marcos, Mateus, Lucas e João, mesmo que reconheça que João é mais tardio e foi escrito em reacção aos ensinamentos gnósticos: João, o discípulo do Senhor, prega esta fé e procura, pela proclamação do Evangelho, apagar o erro que Cerinto espalhou entre os homens, como haviam feito antes os Nicoleus, uma seita daquilo a que falsamente se chama ?conhecimento? (Gnosis),
Foi a posição de Ireneu que se tornou predominante e acabou por fundar a Igreja Católica. Os evangelhos que recomendava foram também aqueles que foram tornados canónicos e assumiu-se que a Igreja era a única que os podia interpretar, mesmo que a Igreja não negue a validade de outros Evangelhos. Veja-se o que a Enciclopédia Católica diz sobre o Evangelho de Pedro: Enquanto o apócrifo tem muitos pontos de contacto com os Evangelhos genuínos, diverge deles em pormenores e exibe evidências de ter sido tratado com mais liberdade. Não há passagens nitidamente heréticas, mas há algumas susceptíveis de interpretação heterodoxa. Uma das poucas passagens extracanónicas que podem conter tradição autêntica é uma que descreve Cristo a ser colocado num trono a fingir pelos seus torturadores. E sobre o Evangelho dos Hebreus: Harnack afirma que o Evangelho dos Hebreus era totalmente independente ds outros, embora a sua tradição fosse paralela à de Mateus. Isto é que tinha muitos pontos em comum com os Sinópticos, mas também várias narrativas e ditos de Jesus que não se encontram nos Evangelhos canónicos. (...) Somos levados a dizer que mesmo se este material extra-canónico teve como ponto de partida a tradição primitiva do cristianismo, foi disfigurado em obediência à Igreja judaizante. Ou seja, o problema destes evangelhos não é serem falsos, tardios ou erróneos, mas sim terem credos ou passagens que não obedecem ao credo católico. Ironicamente, o próprio catolicismo foi fortemente influenciado por Evangelhos não-canónicos, como sejam o Evangelho da Infância de Tiago para as representações marianas ou o Apocalipse de Pedro para as representações infernais de Bosch e Dante. Resumindo, se Paulo criou o "cristianismo" enquanto designação e prática, Ireneu definiu o "catolicismo" enquanto credo e Igreja institucionalizada. Esta institucionalização permitiu uma maior proximidade ao poder logo a partir do Império Romano, que se aprofundou e tornou escandalosa na Idade Média (quando filhos de duques eram nomeados bispos aos 10 anos) e começou lentamente a retroceder a partir da Revolução Francesa. Pessoalmente acho excelente a separação entre religião e estado. Uma igreja incestuosa com o poder não passa de uma PIDE espiritual. Mas isso não vem agora ao caso. Fiuuuuuuuuu, tudo isto para dizer o quê? Que o Novo Testamento foi mais determinado por questões de interpretação e legitimação de posições que de veracidade ou completude. Continuo a teimar que foi a Igreja que criou o Novo Testamento e não o contrário e que a versão criada foi a que obedecia aos princípios expostos por Paulo e por Ireneu. Não creio que o que atrás ficou exposto seja uma refutação da fé de alguém. Uma versão da verdade não deixa de ser verdade para quem acredita. E não há provas rigorosamente nenhumas que a versão neotestamentária definida não seja a mais verdadeira de todas ou mesmo a única verdadeira. Mas isso, como no caso das 34 000 denominações do cristianismo, é pura questão de fé. E a cidade de Deus é diferente da cidade dos homens: a fé existe fora dos factos e apesar dos factos e não pode ser desmentida ou corroborada pelos factos, como bem lembra o Vincent. Lá por os engenheiros terem descoberto um fio do telefone desligado, isso não implica que não tenha sido Deus a desligá-lo intencionalmente. J

P.S. - Este post do tamanho da Sé de Braga NÃO é patrocinado - nem mesmo apoiado - pela Confederação Episcopal Portuguesa! P.P.S. - Diga-me que este não é o maior post que já leram na blogosfera...

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