Cruzes Canhoto!
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9/15/2003

POLÍTICA E RELIGIÃO - A Janela para o Rui Rio mandou-nos uma pergunta tão vasta, tão vasta, tão vasta, que fiquei aterrorizado e deixei-a de molho durante uns tempos. Só agora, peguei na pergunta e vou finalmente tentar responder-lhe, pelo menos em parte, pois parece-me que não vou conseguir, nem de longe, açambarcar tudo o que ela implica. Foi esta: Há algumas verdades absolutas instituídas na nossa sociedade que eu tenho alguma dificuldade em compreender. Uma delas é a associação da dicotomia esquerda vs. direita (com a alternativa indecisos) com a dicotomia ateu vs. crente (com a alternativa agnóstico). É tida como verdade absoluta a ligação direita - crente, esquerda - ateu. Isto é assim, pelo menos no que toca à tradição cristã. Mas é aqui que me surgem várias questões, que gostava de ver debatidas aqui na blogoesfera: a) Porque não pode um comunista ser católico praticante? A igualdade entre todos é incompatível com a fé em Deus? b) Como é que as estatísticas demonstram que mais de 75% da população é católica, mas pelo menos metade da população vota à esquerda? Quer isto dizer que a abstenção é quase toda crente? c) E as outras religiões, alguém que é budista, judeu, muçulmano, protestante ou outra religião qualquer, também é tendencialmente de direita? d) Sendo assim, como enquadramos os terroristas de inspiração fundamentalista islâmica? Serão eles todos de direita? e) E os grupos terroristas com base no separatismo (como a ETA ou o IRA)? Se querem a independência, são partidos nacionalistas, valores que são da direita, certo? (Já perceberam o meu problema, não perceberam? Comecemos.) A questão que é posta é muito interessante mas é colocada de uma forma inadvertidamente falaciosa. A dicotomia esquerda ateísta-direita crente é mais um cliché que um facto. A realidade é muito mais complexa do que queres fazer crer. Tens por exemplo vários padres comunas (a Teologia da Libertação), tens casos de socialistas e comunistas católicos, fascistas ateus, agnósticos de um lado e de outro, religiosos filiados no Bloco de Esquerda, comunistas e bloquistas casados pela igreja, etc., etc.. Do mesmo modo, a associação religião-política não me parece muito viável. A dicotomia direita-esquerda é uma invenção europeia do séc. XVIII e tentar aplicá-la cabalmente a outras culturas é como tentar discutir se o D. João II era de esquerda e o D. Manuel era de direita. Simplesmente não faz sentido pois o pensamento político é radicalmente diferente. O que tens nessas culturas é a evolução de uma consciência nacionalista (embora o nacionalismo também possa ser uma invenção europeia, mas isso é mais discutível) a que a religião deu uma coloração específica. Assim, o Budismo originou a resistência pacífica de Gandhi, as noções de “guerra santa“ e “martírio” marcaram o nacionalismo árabe e a “terra prometida” e “povo eleito” o nacionalismo judeu. A questão primordial, parece-me, é mais do foro da ligação estado-religião. Foi o facto de o Estado na Europa ter sido dissociado da religião que permitiu a tolerância de várias correntes políticas, pois é sabido que a religião tem dificuldades em aceitar que diferentes opiniões podem ser válidas. Mas sobre esta questão, se me dão licença, com vossa permissão, etc., vou armar ao Eduardo Prado Coelho e recorrer a citações de uma estudiosa, Elaine Pagels, professora de religião da Universidade de Princeton e vencedora do National Book Award com um estudo sobre os Evangelhos gnósticos. (Aplausos, aplausos.) Pagels não estuda os Evangelhos do ponto de vista místico mas sim histórico e observa que, ao contrário do que se julga, não foi a Bíblia que criou a Igreja mas a Igreja Católica que criou a Bíblia (Evangélicos, não se enervem!). Nos primórdios do cristianismo havia muitos e variados Evangelhos (como o Evangelho de Pedro, o Evangelho de Tiago, o Evangelho dos Hebreus), as epístolas e os Apocalipses - praticamente um diferente em cada paróquia. Alguns é provável que fossem verdadeiros, muitos eram nitidamente apócrifos, mas a maior parte deste material ficou fora do Novo Testamento, porquê? Pagels explica: Um jovem cristão, chamado Ireneu, tendo visto o seu mentor ser queimado vivo no estádio de Antioquia e várias dezenas dos seus irmãos cristãos linchados, presos e executados em espectáculos públicos em honra do aniversário do imperador, resolveu consolidar os cristão sobreviventes numa única organização mundial (como mundial, leia-se Império Romano) a que chamou Igreja “Católica” (isto, é, "universal"). Para tanto, incentivou todos os cristãos da altura a destruir as várias epístolas e evangelhos, excepto aqueles que ele escolhera para fazerem parte do Novo Testamento. Qual era o objectivo? Tornar o cristianismo uma instituição que fosse mais facilmente digerida e assimilada pelo Império. O Império, que inicialmente encarara com suspeita esta nova religião que se recusava a fazer sacrifícios ou a venerar o Imperador como um Deus e até deixava as mulheres entrarem nos templos (para os romanos, a única altura em que homens e mulheres se reuniam na mesma sala era para fazer orgias), passou então a tolerar o Cristianismo e mais tarde Constantino agarrou-se a ele, como tábua de salvação para manter unido um Império que já ameaçava desagregar-se. A partir de então, o Cristianismo tornou-se uma entidade estatal, conservadora e representante do poder instituído que os conservadores admiram e os revolucionários detestam. Pagels considera que o Estado procura sempre fortalecer-se com a religião quando entra em decadência, chamando à baila o “Deus” que Bush insiste em ter do seu lado. Se isso é verdade em alguns casos (pense-se em Saddam que quase virou fundamentalista islâmico para se agarrar ao tacho depois da Guerra do Golfo), também é verdade que a religião pode ser usada para consolidar do poder de um estado emergente, como no caso dos Reis Católicos que usaram da religião para varrer da Península minorias potencialmente ameaçadoras da sua recente hegemonia, como mouros e judeus. Mas ainda sobram várias questões: Porque foram escolhidos uns Evangelhos e não outros? Porque é que foi na Europa que nasceu a separação do Estado da Igreja? Porque é que comunas e cristãos não se entendem apesar de serem ambos a favor “dos pobres”? Follow the posts, please. J

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