Cruzes Canhoto!
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10/27/2003

LINKS DE MULHERES - Uns diazitos depois da nova lista de links ter ido para o ar, já houve alguma reacções: uma parte parece ter gostado, outros mostraram-se neutros ou indiferentes, houve uma correcção (obrigado, Statler) e duas reclamações. Como esperado, as reclamações vieram de onde esperava - os blogues colectivos. Enquanto no blogue mantido por uma ou duas pessoas é relativamente fácil identificar temáticas e estilos e equipará-los a livros, nos poliblogues há uma diversidade de opiniões, temáticas e estilos que não tem paralelo com a maior parte dos livros. Podem, claro, traçar-se paralelos com antologias académicas, mas há uma quantidade muito limitada de antologias que não versem sobre a problemática do filoplâncton ou o uso do díctico em Camilo Pessanha. Uma das reclamações veio do Tomara Que Caia, e é demasiado interessante para ser ignorada. A Lia mostra-se ofendida por lhe termos atribuído o título A cultural history of menstruation de Janice Delaney e pergunta-me se chamaria a um blogue colectivo de homens "blogue da testosterona". A resposta é simples: não, porque o corpo feminino é infinitamente mais importante e sofisticado que o corpo masculino. A sua importância é tal que constitui o alicerce de toda a civilização humana e é o elemento icónico omnipresente de todas as civilizações e todas as eras desde as voluptuosas Vénus paleolíticas. É também o único corpo sobre o qual teólogos e políticos legislam obsessivamente, determinando como deve ser coberto ou descoberto, decorado, limpo, manuseado, punido, comprado ou de qualquer outra forma subjugado e sobre o qual se fazem ou tentam referendos. Aliás, a diferença última entre países desenvolvidos e em vias de desenvolvimento é o tratamento do corpo da mulher, que nos primeiros é mostrado (já lá vamos) e nos segundos é escondido com burkas, excisado e apedrejado. O corpo feminino é a mais sofisticada e potente arma política, económica e social jamais desenvolvida, pelo que as violações são muito frequentemente uma prática bélica incentivada pelos regimes expansionistas. Foi aliás ao corpo da mulher que Estaline recorreu, quando necessitava de compensar os 20 milhões de mortos da II Guerra Mundial, acabando com os anticoncepcionais e promovendo a utilização de vestuário feminino mais ousado. É também a causa da construção do muro da Cisjordânia, pois a taxa de natalidade palestiniana é mais aterradora para a concepção de estado sionista que qualquer bombista-suicida. O corpo da mulher é fundamentalmente distinguido pela menstruação. Um hermafrodita masculino ou um homem que mudou de sexo nunca poderão ter menstruação pela simples razão que não podem procriar. E neste aspecto a menstruação é o símbolo último da mulher e um acontecimento de excepcional importância – basta pensar o que implica ausência de menstruação... O antropólogo trotskista (e neste caso o qualificativo é para levar a sério) Chris Knight defende que a menstruação foi a causa primeira da civilização, pois a capacidade das mulheres que vivem juntas de coordenar a menstruação originava “greves de sexo” biológicas, que não só forçavam a exogâmia, como foram ritualizadas e tornadas “sobrenaturais” pelas próprias mulheres como forma de impedir que os homens as abandonassem prenhes ou com as crias. Chris Knight cita o caso dos primatas, em que são os machos que recolhem a maior parte da comida, que depois facultam à fêmea em troca de sexo (sim, a prostituição é uma instituição mais antiga que o casamento). Segundo este antropólogo inglês, a capacidade de todas as mulheres de um grupo humano ficarem solidariamente menstruadas forçava os homens a partir em busca de caça, com que depois voltavam para entregar às esposas e acabar com a “greve”. Esta situação tem referências nítidas a Artémis, a deusa grega da Lua (o principal símbolo da menstruação) e da caça. Chris Knight cita a propósito a história da Bela Adormecida que “sangra” num fuso e fica “adormecida” até o seu príncipe a vir “salvar”, mas eu prefiro a história da Branca de Neve que era “pura” até ser “amaldiçoada” pela “madrasta” e ter de se esconder na floresta com sete anões (tantos como os dias da menstruação) até o “príncipe” lhe oferecer um beijo. A consequência desta estratégia feminina seria o nascimento do rito religioso e da divisão do trabalho. O primeiro teria como efeito o surgimento das oferendas aos deuses (lunares) para aplacarem a “maldição” das mulheres e, mais tarde com o surgimento das sociedades patriarcais, a utilização de sacrifícios de sangue (animais e humanos) como metáfora da “oferenda” de sangue da mulher. O segundo originou a distinção do homem como “ganha-pão” e da mulher como “distribuidora e confeccionadora do pão”. Esta distinção ainda hoje existe na nossa sociedade, quer etimologicamente (o “lord” e “lady” ingleses têm esse sentido), quer realmente (é o que acontece ainda me muitas famílias desfavorecidas do Mediterrâneo em que o marido ganha o salário e o entrega à mulher para ela gerir). Não me parece que esta distinção à volta da menstruação possa ser um “preconceito” machista, pois terá sido o fundador das primeiras sociedades matriarcais, em que o corpo da mulher e ela própria eram alvo de exaltação, ritos mágicos e o centro do poder. Pelo contrário, foram as sociedades patriarcais indo-europeias e semitas que reagiram contra o corpo da mulher, o cobriram de tabus, proibições e deveres e a menstruação passou de um momento mágico a uma “maldição”, uma “impureza”, uma “vergonha”. Estes tabus prolongam-se até hoje, tanto nas sociedades africanas que obrigam as mulheres menstruadas a ficarem escondidas numa casa afastadas, até à nossa sociedade “aberta” e “moderna” onde não se fala da menstruação a não ser quando ela não existe: a menopausa e a gravidez. Basta ver os anúncios de pensos higiénicos que falam de tudo menos da menstruação, o código laboral que nem reconhece o simples facto que as mulheres trabalhadoras têm alterações biológicas regulares e por isso talvez devessem ser contempladas com algumas medidas de tolerância, ou mesmo por ser um facto biológico que o Pipi nunca se atreveu a falar. Tendo em conta, Lia, que no vosso blogue há um certo assumir provocatório de uma certa feminilidade estereotipada (em alguns posts ou em chamar “fofocas” aos comentários), julguei que aceitavam a idiossincrasia de serem um dos pouquíssimos blogues colectivos totalmente no feminino, em oposição às grades de blogues 100% Y, pelo que fico na dúvida se o “preconceito” não será mais da vossa parte contra a referência ao tabu da menstruação. No entanto, eu não acredito nas diferenças psicológicas inatas entre homens e mulheres, só que não tenho forma de não acreditar nas diferenças biológicas inatas e acharia que verdadeiramente insultuoso era atribuir-vos os dislates pseudo-femininos da Isabel Stilwell e o seu Guia para ficar a saber ainda menos sobre as mulheres. Bem, acho que me perdi algures entre a Cisjordânia e a Branca de Neve e os Sete Anões. Peço desculpa se percebi mal o carácter do vosso blogue, não tive a mínima intenção ser insultuoso, e estou disposto a aceitar outras sugestões de livros ou mesmo a manter o link congelado até descobrir todo esse elemento comum que todo o pessoal do Tomara que caia. J

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