Cruzes Canhoto!
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10/26/2003

O DESCARRILAR DOS BONS COSTUMES - Enquanto muitos se entretinham com o desvendar do Pipi, eu, mesmo não estando lá, tinha também a minha dose de imoralidades. Numa cidade média do litoral (que vai permanecer anónima para proteger o Animal de cair em tentação), encontrava-me eu num espectáculo promovido por uma escola de dança. O público, tal como em muitos espectáculos profissionais que há por aí, estava comprado - isto é, era composto pelos pais, mães, irmãos, irmãs, tios, padrinhos, madrinhas, vizinhos, vizinhas, etc. das intérpretes. (sim, "das inérpretes", pois estas constituiam uma verdadeira maioria saddamiana.), todos armados com bebés de colo e palmas prontas para o que desse e viesse. Estava, portanto, no meio de uma enxurrada de votantes do bloco central, depreciativamente conhecidos por "pequeno-burgueses". Como devem imaginar, para passar despercebido afivelei o meu ar mais contabilista-devoto-do-Cavaco-esse-grande-patrono-da-contabilidade-fiscal-criativa possível e fiquei o tempo todo calado como um rato no meio da Conferência Anual de Felinófilos. Sendo espectáculo de escola, as intérpretes variavam desde 1.ª ciclo do Ensino Básico até pré-universitárias e os seus talentos iam desde o "tem potencial" até ao "nem graciosidade conseguia ter a cair de um penhasco com 300 metros de altura". Eu deveria ter achado estranho, que a maioria do acompanhamento musical fossem canções de hip hop do momento, recheadas de "shit", "fuck", "ass", "cock" e outras insolências do género, mas como a dado momento alguém se lamentou a meu lado que se preferissem as americanisses às "nossas danças tradicionais portuguesas", não me preocupei muito com o assunto. O pior foi o final. Este constituiu-se num medley do El Tango de Roxanne e do Lady Marmalade, tirados do épico festivaleiro do Baz Luhrmann, Moulin Rouge. As referências eram cabais, desde o coração gigante como cenário, às raparigas vestidas de prostitutas oitocentistas. Sim, meus amigos, durante 10 minutos, duas dezenas de raparigas de 15 aos 17 anos em combinação e meias de ligas, fizeram uma espécie de dança que consistiu em apalpar o peito, passar as mãos pelas nádegas semi-descobertas e pôr a mão na púbis que agitavam e subiam e desciam com vigor, além de se colocarem em todo o tipo de posições x-rated. No final dos dez minutos a música calou-se e houve silêncio. Aguardei a explosão do momento queiroziano, com pais enrubescidos a erguerem-se dos assentos e a berrar "Estão a tentar transformar a minha filhinha numa rameira!" ou "Eu vim cá para ver a minha filha de tutu e não de ligas!". Esperei os tumultos, o linchamento dos professores da escola de dança. Temi que deitassem fogo à sala. Imaginei o rosto de satisfação da Manuela Moura Guedes a abrir o Jornal Nacional... Qual quê! O que ouvi foram aplausos e mais aplausos e não vi nem um rosto chocado, indignado ou à beira da apoplexia. Abri a boca de espanto. Seria este o meu país que se indignou e manifestou com o Pato com laranja, o Império dos Sentidos e a rábula da Última Ceia? Estupefacto, esperei pela saída para arrebitar os ouvidos aos comentários pós-show, esperando ouvir promessas surdas de "tirar já a minha filha daquele antro debochado" ou "Isto é tudo culpa daquela porcaria do Big Brother!"... Nada. Só elogios ao espectáculo e comentários que "A nossa [nome próprio feminino] foi a que dançou melhor!" E tive de me render às evidências: a moral simples e sincera do bom povo português que a direita tanto gostava já não é o que era. J P.S. - Caros agentes do DIAP, gostaria de ressalvar que apesar de ter estado presente num espectáculo potencialmente pedófilo, o fiz contrariado e desconhecendo o género de depravação a que ia. Informo ainda que não tirei fotos nem filmei e que, ao longo do espectáculo, mantive afastados, tanto quanto me foi possível tendo em conta as circunstâncias, todos os pensamentos impuros que me pudessem ocorrer. Alego em minha defesa que tinha ao colo um bebé com ar particularmente feliz e risonho que se manteve integralmente vestido o tempo todo, além de que eu estava com o ar mais eleitor do Durão possível, pelo que quase podia servir de publicidade à Valentim de Carvalho. Estou perfeitamente disposto a colaborar convosco em tudo o que for necessário, identificando em fotografias todos os elementos presentes no espectáculo que aplaudiram com ar satisfeito.

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